Angotur

Ainda as vendas de porta a porta

Rui M. dos Santos

Rui M. dos Santos

· Atualizado 13/05/2026

As artes e a reprodução

Como referi no artigo Grollier, os meus chefes da Grolliers criaram uma empresa para "vender reproduções de quadros celebres" e convidaram 5 vendedores da Grollier para se juntarem a essa iniciativa. Eu fui um deles.

Foi uma experiência e tanto.. Mais ou menos um ano de trabalho.. Já estava no 2º ( e creio que parte do 3º) ano do ICL e o curso do ICL acabou por acabar comigo na Angotur. Como me tinha formado como Perito Contabilista acabei por largar este emprego, que, apesar de ser a comissões, era muito bem remunerado onde acabei por sair para um emprego "na profissão".

Mas sobre a Angotur ... Sabia ZERO de ARTE ... Logo no inicio das vendas tive o meu teste de fogo .. "Um advogado que visitei perguntou-me" ... Tem "impressionistas" ?? Eu fiquei parado ... Impreéééé quê !!! Pensava que era só mostrar o catalogo, o cliente escolhia e pronto ...

Pedi desculpa e fui de imediato à Biblioteca do GPL (então chamada de Camara Municipal) na Mutamba ... Sentei-me e pedi livros sobre "ARTE e PINTURA" ... Fiz um auto-curso .. Impressionistas, pintores/artistas/história etc etc .. Sai com o minimo conhecimento para "não dar bandeira nos clientes"

Fui o melhor vendedor mês a mês durante todo o tempo que lá trabalhei.

No fim do ano, como melhor vendedor do ano, ofereceram-me uma "máquina fotogrática LEICA" num jantar que teve lugar num espaço que não existe mais especializado em bacalhau perto da zona industrial da Cuca .. O Vilela ( creio que era assim chamado ).

Foi aí que, pela primeira vez tomei um copo de vinho. Nunca tinha bebido qualquer tipo de bebida alcoolica. Quando me chamaram para receber o prémio NÃO ME CONSEGUIA LEVANTAR ... Um copo de vinho !!!!! Foi algo dificil para mim explicar e creio que eles pensaram que era da "emoção" MAS a realidade é que tive dificuldade em movimentar-me. Nunca entendi o problema e mais tarde consegui começar a movimentar-me.

A Itinha continuou minha chefe de grupo. Ela e o marido, Sr Moreira assim como o outro sócio da Angotur, chamaram-me já em 1975 e perguntaram ....

VAIS FICAR EM ANGOLA ??? Eu disse que sim ... Eles, receosos da guerra que estava em curso e que eventualmente continuaria ( e continou mas de forma diferente ) tinham decidido ir "passar a independência fora de Angola". Disseram que logo que estivesse tudo estabilizado voltavam.

Nao me deram procurações nem nada ( também creio que nem tempo haveria para isso ) ... FACTO ... Numa altura em que já não trabalhava na Angotur fiquei a TOMAR CONTA da GROLLIER E ANGOTUR e a chefiar uma equipa de vendedores que coordenava entre as 18 e 20 horas todos os dias.

Nessa altura também me deixaram os carros ... Carros esses que, na época era algo que começou a ser muito valioso. MAis uma vez sem declaração de venda nem nada ... Dois dos carros ( Um citroen DS e um VW carocha ) desapareceram e o Ford Taunus só não desapareceu porque eu o emprestei a um amigo meu para o usar em troca de "fazer as entregas das peças da Angotur vendidas pelos vendedores. .. . Consegui anos mais tarde legalizar o Ford e numa das deslocações a Portugal consegui encontrar o Sr Moreira e entreguei um cheque de 100 mil escudos, valor que, na época achei que seria o valor do carro. Acho que eles nem contavam com isso. Na altura expliquei tudo o que tinha acontecido. A comissão de trabalhadores, o desaparecimento do DS e VW etc ...

Quando, após a independência, ficou claro que Angola tinha fechado as fronteiras e que eles não conseguiriam tão cedo voltar e depois de um episódio onde um vendedor ( que mais tarde verifiquei serem práticamente todos ) estavam a "meio enganar a empresa", fiz uma reunião de trabalhadores, expliquei a situação de tudo e que não podia continuar a tomar conta da empresa.

Criei uma comissão de trabalhadores e ENTREGUEI A GESTÃO ao chefe dos vendedores chamado "Santos" ...

Passei a focar apenas no meu emprego no ABBOTt ( empresa onde me encontrava quando o Sr Moreira e a Itinha me chamaram) .

NOTA FINAL - O tal "meio enganar do vendedores" ... A empresa na altura para além da venda dos quadros que já não se conseguiam importar mais, começou a revender "cerâmica de belissima qualidade produzida por uma fabrica chamada FAIARTE"

ORA, na época já se começava a verificar a "desvalorização do dinheiro" e, o que se passava era ..

A peça custa, por exemplo 1000 escudos ( preço de tabela ) ( que incluia uma comissão para o vendedor)

O contrato entre a Angotur e cliente era feito em duplicado com um papel quimico que reproduzia o que se escrevia no original.

O vendedor, sabendo que o preço 1000 já não era o preço de mercado, vendia por, por exº 1200 ... Preenchia o contrato todo excepto o preço... Depois retirava o papel quimico e no original para o cliente escrevia 1200 escudos e no duplicado 1000 escudos... Recebia 1200 escudos e quando fazia contas comigo entregava apenas 1000 escudos menos a comissão de tabela. ISTO QUER DIZER QUE o vendedor ganhava mais que a empresa. Não estamos a falar de diferenças PEQUENAS .. Estamos a falar em 30 a 50 % mais ... As peças FAIARTE ERAM DE FACTO OBRAS DE ARTE ... Eles souberam ver o preço real das coisas e eu, NÃO SOUBE VER... De qualquer forma não tinha forma sequer de AGIR porque era apenas um "tomador de conta" ... Como referi, simplesmente, criei a comissão de moradores e passei tudo para essa comissão.

Não sei sequer o que aconteceu depois. Ainda tive uns contactos como Santos por várias ocasiões mas não sei o que aconteceu depois.